Missing People

Além da leitura mais evidente do filme de Trefault – Farenheit 451 – que  recorre à metáfora de queimar o livro – muitas vezes simbolo de regeneração, irreversível… –  numa crítica à saída da sociedade do homem tipográfico para a entrada da era do homem do futuro. Algo que não se sabia ao certo o que seria, mas que rejeitaria o livro.

Creio que seja possível fazer uma outra leitura, referindo McLuhan que de certa forma chega mais perto. O futuro é a era da estonteante velocidade da electricidade e de todos os meios que surgem dessa possibilidade. Talvez a era de hoje, do futuro de Trefaul, não seja imediatamente contra o livro, mas a favor de tudo o que não faça perder tempo. Sendo que uma das lacunas de hoje, que considero mais grave, é o passar à frente, o não perder tempo com assuntos e situações realmente importantes. Tudo o que cresce sobre bases não sólidas e que não foram pensadas, torna-se instável, dando acesso a rupturas.

A interpretação que vai para além da superfície da questão, da forma, aborda a interiorização por meio das relações e ligações que estabelecemos com a nossa realidade.

Não pude deixar de reparar na evidência do que é a sociedade estandartizada, homogénea, que segue um regime que parece implementar de forma redundante uma fórmula da felicidade. No quotidiano, um dos aspectos que salta mais à vista, é o comparar constante dos percursos individuais dos cidadãos pertencentes  a uma sociedade. Se a pessoa X tem a minha idade e ja tem filhos, então eu sinto-me frustado por ter a mesma idade e não ter filhos, se a pessoa Y tem um emprego com Z remuneração, então também eu  procuro o mesmo.

De uma maneira ou de outra, recorre-se à uniformização, porém, a humanização não decorre apenas da acção em conjunto. A compra em massa de um par de ténis nike não é um acto de humanidade porque o fazemos em conjunto… Acolher o outro que vem de um país em guerra, é um acto de humanidade. E pode começar individualmente.

Todos somos humanos, mas todos temos percursos diferentes, que devem ser adaptados ao nosso ritmo e à nossa individualidade. Por vezes as campanhas de vendas querem fazer-nos acreditar que somos únicos. E na verdade até têm razão, mas não somos únicos segundo os parâmetros do consumo, somos únicos quando decidimos não sucumbir ao consumismo e ao capitalismo. Se é que para isso temos individualidade!

Não pude deixar de reparar nas correspndências. Imediatamente estabelecemos relações, a partir do que é uma sociedade que vai surgindo, não porque alguém pensou nisso, mas por necessidade.

Uma sociedade de livros vivos, humanos, surge naturalmente. Em resposta a um estado de felicidade que reforça a criação de um novo ambiente e sociedade. O anonimato torna-se uma forma de permanecer nas entrelinhas do que são palavras transmitidas a negrito. Uma forma de não sucumbir.

Paralelamente ao anonimato que surge como ferramenta na criação de uma nova sociedade de livros, creio que o anonimato, na sociedade de hoje, possui outras características. O anonimato é utilizado pelo próprio sistema. Aqui deixo um link, no mínimo intrigante.

“Now I Have Learned That There’s a Worse Thing Than Death”, Ghost boat by Eric Reidy

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