Forecasting – Giuseppe Chico / Barbara Matijevic

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A performance que fui assistir este sábado ao Teatro Maria de Matos, destaca, de modo muito interessante e inesperado, o que pode ser a relação corpo virtual e físico – um corpo duplo, ponto de passagem dos dois mundos, que é ele-mesmo e outras pessoas, pois estando aqui, connosco, está  simultaneamente noutros lugares (do passado ou mesmo do presente) através de diversas acções que se realizam em vídeos amadores do Youtube e que falam connosco.

Na verdade, tudo começa com a abertura das cortinas revelando um macbook no chão e que apresenta tudo em monólogo, num tutorial.

E depois, só depois, surge a performer Barbara Matijevic que complementa, através do seu corpo, todas as ações que se passam no ecrã numa escala de 1:1. No entanto a presença real, a sua acção, surge sempre após os “hints” do ecrã. Só a apartir daqui a audiência consegue imaginar  cenários num palco vazio. As ações de Barbara são tão expressivas que chegam mesmo a sugerir o horror, riso, vergonha em acções banais, encadeadas, e que são descontextualizasas pelos seus movimentos e forma de narrar. Encenar o espaço-tempo torna-se algo suspenso entre dois regimes paralelos de percepção.

Mesmo à medida que a performance decorria, lembrei-me da mulher que vai ao teatro e mesmo precocemente publica sobre o evento na rede social f, lembro-me do rapaz que foi ao festival de música x e que curtiu a música não pelo olhar, mas sorrindo e sentindo tudo através da imagem, minúscula, da câmara do telemóvel. O estar num lugar parece apenas necessário para registar o momento. Para comprovar a outros de que estivemos ali. Uma expressão que ouvi em tempos – “O que não é publicitado, registado, não existe.” Não digo que tudo se passe deste modo, mas a questão é que de alguma forma, é cada vez mais usual.

Por muito que o queira negar, a tecnologia não muda somente o mundo, muda também os corpos desse mundo. Que a forma como os gadgets se intrometem na nossa vida aumenta, se não por nós próprios que os negamos, pelos outros com quem convivemos e que também os têm no bolso. É  gritante que a arte não esqueça o seu modo natural, de convívio ou isolamento, de tempo para si própria, para o artista e para os outros.

No entanto, a arte regista sempre, de algum modo, o tempo que lhe é contemporaneo. Assim, se esta é criada no brainstorming do “corre corre” de todos os dias, é também o reflexo do modo como hoje entendemos a narração, a percepção da nossa presença e a nossa relação com a cultura.

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